Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (22)
Parábolas do Reino – a semente e o semeador
Como nós já vimos, numa primeiro momento, o autor do
Evangelho de Marcos nos apresentou Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, que João
Batista anunciava na sua pregação no deserto e batizou no rio Jordão. Este Jesus começou sua pregação depois que
João foi preso. Ele anunciava a chegada do Reino de Deus. O autor nos contou de
uma série de atividades do Nazareno para demonstrar a natureza libertadora do Reino,
a nova criação. A reação dos poderosos, os “cidadãos de bem”, era decidir
mata-lo ao perceber que ele era um perigo para o sistema tradicional que eles
mantinham. Entretanto o Nazareno era imensamente popular entre os galileus, o
que impedia a eliminação rápida e fácil deste rabino. Logo começaram uma
campanha midiática difamadora contra Jesus acusando o de “corrupção”, isto é,
ser possuído por Belzebu para poder realizar exorcismos. Era o início de um
projeto de alcance longo que eliminaria o elemento que incomodava as elites. Até
mesmo a própria família de Jesus chegou a acreditar que ele “ficou louco”; foi
o momento em que Jesus anuncia os critérios de pertencer a nova família do
Reino de Deus: fazer a vontade de Deus e não mais a consanguinidade.
Nessa conjuntura Marcos começa nos apresentar as parábolas
de Jesus. O dicionário define a parábola assim: “narrativa alegórica que evoca,
por comparação, valores de ordem superior, encerra lições de vida e pode conter
preceitos morais ou religiosos”. No capítulo 4 de Marcos temos uma série de
parábolas reunidas, a chave hermenêutica para entender o sentido da prática de
Jesus. As parábolas são dirigidas à multidão e aos discípulos. O que chama a
nossa atenção é que elas mostram como o anúncio do Evangelho da vida resgatada
cria novos conflitos, ou revela os que já existem na sociedade, na vida
cotidiana.
O primeiro texto de parábola que temos encontra-se no Mc
4,1-9. Os outros evangelhos sinóticos têm seu paralelo (cf. Mt 13,1-9; Lc
8,4-8). O cenário é a beira-mar. Por causa da numerosa multidão que se reuniu
para ouvi-lo, Jesus sentou-se numa barca sobre o mar, ensinava muitas coisas à
multidão que estava em terra. Ele ensinava em parábolas; a parábola que o autor
nos conta é: um semeador saiu para semear. Aconteceu que parte da semente caiu
à beira do caminho; estas, os pássaros as comeram. Outra parte caiu em terreno
pedregoso; estas brotaram logo, porém não sobreviveram por falta de condições
favoráveis. Outra parte caiu entre os espinheiros, foram sufocadas e não deram
frutos. Por fim, a parte que caiu na terra boa produziram frutos; algumas
trinta, sessenta e até cem por semente. No final do trecho temos uma
admoestação: “Quem tem ouvidos ouça”.
Os textos de Mateus (13,1-9) e Lucas (8,4-8) concordam com o
de Marcos em todos os detalhes. A nota de rodapé na Nova Bíblia Pastoral diz o
seguinte: “A parábola faz pensar na luta de um camponês sem-terra paciente e
confiante, que não desiste mesmo diante dos mais difíceis obstáculos, e confia
em poder produzir o que é necessário para sobreviver com sua gente”. Nenhum dos
três textos não fala nada sobre a preparação da terra que o semeador faz antes
de semear. Todos estes textos repetem o sobreaviso: “Quem tem ouvidos ouça”.
De um lado, o Reino de Deus é uma realidade histórica que
segue o ritmo da nossa vida cotidiana, sujeito a destino comum de todos os
empreendimentos humanos! De outro lado a advertência: “Quem tem ouvidos, ouça”
acentua a importância da decisão humana na realização deste projeto em nosso
meio. Será que no fundo dos nossos debates eleitorais não está em jogo a
aceitação do projeto de Reino de Deus ou a sua rejeição?
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